PINTURAS RARAS SÃO DESCOBERTAS EM IGREJA DE SABARÁ

A morte é igual para todos, independentemente do poder na Terra. Mesmo que o “cadáver ilustre” tenha sido papa, bispo, rei ou militar, o fim nivela quem usou coroa de rei, mitra episcopal ou chapéu de capitão. Essa parece ser a mensagem – ou sentença – contida no forro da Capela do Santíssimo da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Considerada uma das primeiras de Minas, datada de 1710, a igreja entra na terceira fase de restauração redescobrindo as pinturas que, se à primeira vista parecem sinistras, aos poucos revelam a beleza barroca e levam a imediata reflexão. Em cada quadro em policromia, com frases em latim, há uma caveira ligada à ocupação em vida do defunto. “Quando estiver pronta, a capela será uma fonte de informações sobre iconografia, simbologia, arte colonial brasileira e, claro, um encantamento para quem olhar para cima”, diz a especialista Carla Castro Silva, encarregada do serviço. “Pinturas desse tipo são raridade no país”, revela.

Os motivos no forro se referem à antiga serventia do espaço: no passado, foi capela mortuária, sendo feitos ali os velórios de religiosos e outras personalidades da época. Sobre o andaime, Carla aponta os estragos que o tempo, os cupins e as goteiras fizeram nas pinturas. “Vamos desmontar todo o forro e, para tanto, já numeramos peça por peça. Há madeiras apodrecidas e todo o cuidado é pouco”, afirma a restauradora. A capela tem ainda um altar com chinesices, ou chinoiseries , motivos orientais executados por mão de obra chinesa, recrutada em Macau, antiga possessão portuguesa. “O estado aqui também é precário, as perninhas douradas do anjo estão se soltando”, mostra Carla, lembrando que os elementos artísticos são no estilo nacional português, a primeira fase do barroco.

A terceira etapa vai contemplar, além das pinturas e retábulos da Capela do Santíssimo, o altar de São Francisco Borja, certamente um dos mais antigos do estado, e a porta decorada do consistório, que também remetem a temas fúnebres. Há os quatro cavaleiros do apocalipse (morte, fome, peste e guerra), inspirados nos desenhos do pintor e ilustrador alemão Albrecht Dürer (1471–1528), o inferno, o juízo final e o paraíso – nesse, há uma cena curiosa, pois enquanto todos sobem aos céus e são recebidos pelos anjos, apenas o rei fica na Terra, acenando para as almas.

A expectativa é que de que a atual etapa dure oito meses, já estando captados, via Lei Federal de Incentivo à Cultura, R$ 300 mil da Cemig. Como proponente do projeto está a Sociedade Civil Espírito Santo, vinculada à Arquidiocese de Belo Horizonte. “O valor aprovado na lei foi de R$ 1,4 milhão e precisamos do restante dos recursos para concluir os trabalhos, que incluem as duas sacristias, cinco arcadas da nave, o batistério e altar de São Miguel”, explica Henrique Godoy, da Via Social – Projetos Culturais e Sociais, empresa encarregada da produção executiva. A equipe já começou a empreitada de higienização, desinfestação e imunização preventiva; fixação da camada pictórica e do douramento; tratamento e revisão da estrutura; limpeza, consolidação e recomposição de suportes, de elementos de talha da policromia e douramentos; reintegração das cores e aplicação de verniz de proteção. O trabalho terá ainda tratamento, montagem e acabamento das peças.

“É um alívio muito grande para a comunidade, pois as obras continuam. Estávamos preocupados com a situação da Capela do Santíssimo, que se degradava lentamente”, diz o integrante da Irmandade do Santíssimo Antônio Pereira, que está sempre de olho em todos os detalhes ao lado de Élcio Edmundo Brandão. Na sacristia, a auxiliar de restauro Priscila Coimbra, de Sabará, trabalha na mesa do retábulo de São Francisco Borja e diz que é um prazer atuar num projeto que valoriza o patrimônio da cidade.

CUSTOS
Até hoje, já foram empregados R$ 2 milhões no restauro da matriz. As primeiras obras começaram em 2004, com verba do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com substituição completa do telhado, pintura externa e restauração completa da capela-mor. Já a segunda, com recursos de empresas privadas e de economia mista, contemplou o arco-cruzeiro, o forro da nave e as paredes laterais. Interditada pelo Corpo de Bombeiros em 2003, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição sofreu duros reveszes ao longo dos anos, como repinturas das talhas e elementos artísticos, infiltrações, ataque de cupins, madeiras apodrecidas que representam risco à sua integridade e outros fatores de descaracterização.

Da imagem da padroeira, com 2,7 metros de altura, em cedro, que agora ostenta as cores originais e uma coroa de prata, feita pelo artesão Joerg Artur Ammann, foi retirada uma camada de meio centímetro de repintura. “Só do forro da nave, desmontamos cerca de 1 mil peças, que, depois de mapeadas, voltaram para o local de origem, restauradas”, afirma Carla Castro. Outro desafio foi remover 3 mil quilos de entulho, resultado de obras antigas, que estavam na cobertura. Ainda agora, Carla e sua equipe, com os zeladores, recolhem em caixas peças que se desprenderam dos retábulos e do forro. Tombada há 70 anos pelo Iphan, a matriz reúne características únicas, como a forma abobadada e ricos elementos artísticos dos séculos 18 e 19.

Forro teve destaque

O forro da capela mereceu atenção especial de Rodrigo de Melo Franco de Andrade (1898 – 1969), responsável pela criação do Serviço do Patrimônio, em 1937, atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ele destacou o trabalho como “do período inicial da pintura mineira”. E mais: “A maior parte das composições é constituída de formas abstratas, possivelmente para tornar mais impressiva a representação realista dos emblemas que ostenta, da autoridade régia, papal, episcopal e canônica, contrastando com o sentido das inscrições entremeadas no conjunto e tiradas do Eclesiastes e dos Profetas”.

Memória

Documentos foram queimados por padre

A Paróquia de Sabará foi criada em 1701 pelo bispo do Rio de Janeiro, dom Frei Francisco de São Jerônimo. Já a Vila Real de Nossa Senhora da Conceição de Sabará, pelo governador Antonio de Albuquerque Coelho de Carvalho, em 17 de julho de 1711. Entre essas duas datas, iniciou-se a construção da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, que, segundo a tradição popular ,foi sagrada como matriz em 8 de dezembro de 1710. Ao contrário de outras cidades mineiras que têm arquivos com muitas informações, em Sabará a situação é diferente e as datas não são muito precisas. Isso porque os documentos relativos à história da cidade teriam sido queimados por um pároco cujo antecessor havia contraído lepra. Então, para se livrar do risco de contágio, o padre incinerou todos os papéis que estiveram em contato com o doente.

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